Qual o preço de sanar a dor de quem não pode pedir por ajuda?

A profissão que trabalha na prevenção e tratamento do sofrimento animal, não lida somente com a eventual dor do animal, mas também, com a dor dos tutores, que cada vez mais consideram seus animais como membros da família, e em muitas ocasiões, com a própria dor, em situações onde não se é possível salvar a vida de seu paciente. Somado a esta realidade, está o reconhecimento profissional aquém ao que estes profissionais esperariam da sociedade e a baixa remuneração salarial destinada a essa profissão que demanda muito conhecimento, investimento financeiro e intelectual. É preciso compreender que a medicina veterinária, embora em muitas das vezes, ocorra a partir de uma visão romantizada, gerada nos sonhos de infância, pode afetar a saúde mental dos profissionais, sendo infelizmente, essa classe de profissionais uma das mais susceptíveis à depressão e às síndromes de exaustão física e emocional, como o Burnout e a síndrome da compaixão. 

A síndrome de Burnout, também conhecida como síndrome do esgotamento profissional, refere-se a fenômenos relacionados ao excesso de trabalho, que abrange exaustão emocional, perda de personalidade e um senso de perda de realização pessoal. A síndrome da compaixão significa exaustão do profissional gerada pela necessidade de ser empático e útil com aqueles que estão sofrendo, que no caso do médico-veterinário, são os pacientes e seus tutores. Propensos a viverem essas síndromes, os médicos-veterinários estão incluídos entre os grupos ocupacionais com taxas mais altas de suicídio quando comparados à população geral, de acordo com a OMS (2000). Em uma pesquisa feita por Skipper e Williams (2012) com 701 médicos-veterinários, 66% admitiram ter tido depressão, 24% já haviam considerado o suicídio e 11% afirmaram que o suicídio é uma preocupação significativa para eles, realidade que pode ser transformada com a valorização do trabalho desses profissionais.

A campanha do mês de setembro, o “Setembro Amarelo”, é uma campanha de conscientização e prevenção do suicídio e um período que abre espaço para conversarmos sobre esses assuntos, entendermos sobre as síndromes psíquicas que podem afetar nossa classe médico-veterinária, para que possamos identifica-las e evitá-las. É importante que seja no intervalo do trabalho, seja após um plantão exaustivo, seja nas refeições do final de semana, está tudo bem se nos abrirmos e compartilharmos nossos sentimentos, nossos casos clínicos, nossas dificuldades, e assim, dar também espaço para os colegas compartilharem as próprias vivências. Não há problema em procurar ajuda profissional para nos entendermos e entendermos nossos processos. O Centro de Valorização da Vida (CVV) realiza ajuda voluntária na prevenção do suicídio, atendendo todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo pelo telefone 188, e-mail e chat do próprio site 24 horas, todos os dias, sendo uma forma sigilosa e gratuita de buscar apoio emocional, de buscarmos ajuda para estarmos bem, para poder ajudar aos animais com êxito e qualidade.

Em geral, dentre os fundamentos que levaram ao médico-veterinário ingressar no curso de medicina veterinária está a valorização da vida animal, do bem-estar, dos seus direitos e qualidade de vida. A medicina veterinária hoje precisa e deve trabalhar dentro do conceito de família multiespécie, baseado na relação humano-animal, onde a família é composta por humanos e seus animais de estimação, resultado do próspero aumento da valorização e direito dos animais, do perfil familiar atual, da ascendência profissional, dentre outros fatores. Sendo assim, o médico-veterinário, como sendo profissional da saúde, tem um importante papel também na saúde do núcleo familiar. 

Diante de todo este entendimento, é fundamental que estes profissionais sejam cada vez mais reconhecidos e valorizados socialmente e economicamente. É necessário também que os médicos-veterinários saibam pedir ajuda quando precisarem, que criem redes de apoio, que estejam comprometidos com o trabalho em sua totalidade, gerindo suas emoções, equilibrando suas habilidades, esforços e competências. Além disso, é primordial o reconhecimento por parte destes profissionais como sendo seres humanos, limitados, que erram e acertam, como qualquer outro. Devem portanto, reconhecer os limites físicos e mentais bem como todos os impactos decorrentes dos desafios vivenciados, voltando o olhar constantemente para o autocuidado para que estejam aptos a cuidar exitosamente de outras vidas. 

 

RABELO, R. A síndrome burnout em medicina veterinária. Journal LAVECC. v.3, n.4, p.286-300, 2011.

Organização Mundial da Saúde (OMS),. Prevenção do Suicídio: um manual para médicos clínicos gerais. Genebra, 2000.

SKIPPER, G., et al. Failure to acknowledge high suicide risk among veterinarians. Journal of Veterinary Medical Education, v. 39, p. 79–82, 2012.

HATCH, P., et al. Workplace stress, mental health, and Burnout of veterinarians in Australia. Australian veterinary journal, v. 89, n. 11, p 460-468, 2011

Escrito por: Carolina Geraldi da Silva – Embaixadora do IMVC
Revisado por: Laiza Bonela – Membro do IMVC