Os maus-tratos aos animais, sejam na forma de crueldade ou negligência, bem como os abusos no qual são submetidos, fazem parte da realidade brasileira. Geralmente a sociedade tende a considerar atos de crueldade contra animais como fatores pontuais e desagregados de outras formas de violência, sejam por questões culturais ou sociais, muitas vezes arraigados nas populações. No entanto, é importante considerar que a violência é o reflexo de um processo de dessensibilização, vivenciado pelo agressor ao longo de sua vida e que essa característica não se limita aos animais, mas também às demais formas de vida, inclusive o ser humano.

A etiologia da violência é de caráter multifatorial, que pode perpassar desde questões inerentes aos indivíduos como intercorrências nas experiências primárias parentais, experiências traumáticas na fase infanto-juvenil, laços afetivos débeis, até ao conjunto de fatores envoltos no meio em que o indivíduo vive como aspectos socioeconômicos, educacionais, culturais. Na “Teoria do Elo” a violência é entendida como um ciclo intergeracional, como uma violência que eclode a partir de experiências vivenciadas no período inicial de desenvolvimento humano em âmbito intrafamiliar e que se expressam de forma prejudicial durante a própria infância, juventude e fase adulta. Nas últimas décadas, pesquisas científicas de todo mundo, principalmente da América do Norte comprovaram a existência da conexão entre a crueldade contra os animais e a violência interpessoal, ou seja, a ocorrência dos maus-tratos aos animais não é um fator que acontece de maneira isolada na sociedade, sendo a violência contra o animal, um fator reconhecido como sinal de problemas no ambiente familiar.

Para profissionais que atuam diretamente com as diversas formas de violência infligidas contra humanos ou animais, essa perspectiva ainda é incipiente, mas tem sido compreendida e incorporada gradativamente.

As violências em geral, de alguma forma estão inter-relacionadas, principalmente em âmbito familiar, de modo que as maiores taxas de violência contra mulheres, crianças, jovens e idosos ocorram no ambiente domiciliar. Alguns estudos apontam a mulher como a principal vítima nesse contexto da “Teoria do Elo”, que se configura como “violência doméstica”, o tipo de violência mais comum detectado no país. Em sua grande maioria, os agressores são os cônjuges, pais ou filhos, seguidos por namorados e ex-namorados e, finalmente, conhecidos próximos ou vizinhos, caracterizando a violência dentro da própria casa como a maior fonte de lesões corporais.

No contexto de saúde pública e da medicina veterinária, segundo Baquero et al. (2018), quanto maior a população de animais de um determinado local, maior será a ocorrência de violência. Além desse fator, quanto maior a vulnerabilidade social de uma população, maior será a frequência de violência, provavelmente, pela estruturação familiar, pela possível escassez de recursos e por fatores rotineiramente estressantes.

Essas descobertas científicas demonstram a importância de se rever o papel dos animais de estimação para além de extensão do contexto familiar, como parte de um processo de sentinela à questão da violência interpessoal, que se constitui como um problema de saúde pública inerente ao Brasil na atualidade. O objetivo daqueles que trabalham para prevenir as diversas formas de violência interpessoal, principalmente o abuso infantil deve estar em consonância com o daqueles que procuram evitar a crueldade contra os animais no intuito de se fomentar uma ética única que aprecia a sensibilidade de toda e qualquer forma de vida. Dessa forma, acredita-se que o profissional médico veterinário seja indispensável e peça fundamental para diagnóstico, prevenção e controle da conexão entre as mais variadas formas de violência. Uma resposta gerada de forma precoce tem o potencial de salvar vidas humanas e reduzir o sofrimento dos animais.

As denúncias podem ser feitas pelo telefone 0800 61 8080 (gratuitamente) ou pelo email para linhaverde.sede@ibama.gov.br. O IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) as encaminhará para a delegacia mais próxima do local da agressão.

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(41) 98882-3300